entrevistado por
Luiz Roberto Oliveira



CAPÍTULO IV



No Carnegie Hall

CL - Desde quando o João Gilberto me apresentou ao Tom em 1955, até 1962, quando nós fomos juntos para o concerto no Carnegie Hall, nós sempre nos frequentamos muito, trocamos muita figurinha. E tem uma passagem muito engraçada desse concerto.
LR - Como foi?
CL - Nós estávamos no fundo, nos bastidores, quando começou aquele concerto do Carnegie Hall, era uma zona, e saiu a Carmem Costa com duas maracas...
LR - Aquilo foi uma bagunça, não foi ? De repente foi todo mundo sem ensaio, sem nada?
CL - Uma esculhambação total, mas o (empresário) Sidney Fry, ele botou todo mundo pra dentro, o Caetano Zamataro fazendo passo de escola de samba, e uns caras fazendo uma batucadinha lá atrás. Foi uma zona.
LR - Mas chegou a ser uma boa mostra da música brasileira?
CL - Acabou sendo, porque dentro daquela zona toda, apareceram as coisas. O Tom tocou, o João tocou, eu toquei...
LR - Mas também tinha muita coisa que não tinha nada a ver.
CL - Tinha mesmo. O Claude Bernie cantando "I wanna samba, I wanna samba, go, go, go, go, go". O Tom foi muito mau representado várias vezes, teve gente que tocou um monte de merda.

LR - Mas qual era a história que você ia contar?
CL - Ah, o engraçado é que eu fiquei aborrecido com aquela bagunça toda e eu não queria mais cantar, e chamei o Tom pra gente ir embora. Cheguei pra ele e disse: "Tom, a gente tem de sair fora desse negócio, vamos eu ,você , o João, o Bonfá, o pessoal que veio aqui fazer as coisas direito, vamos embora daqui, não vamos fazer esse show não". Mas antes o Sidney Fry já tinha estado aqui no Brasil e fez a gente assinar um contrato - e o Tom disse: "Carlinhos, você assinou aquele papel do Sidney Fry ?" Eu disse que sim, e ele: "Pois é, aqui não se pode fazer isso não, assinar um papel e ir embora, porque aqui tem cadeira elétrica !" (risadas)


Norman Gimbel

CL - Teve uma época em que o Tom morou nos Estados Unidos, e nós também nos víamos muito lá. Ele teve um parceiro americano que era o Norman Gimbel, que aliás, fez várias letras para músicas minhas, também. A primeira vez que eu fui ao hotel em que o Tom morava, em Nova York, estava lá o Norman Gimbel. Eu tinha ido visitar o Tom, e nem conhecia o Norman Gimbel ainda. E aí o Tom me apresentou a ele: "Carlinhos, este aqui é o Norman Bengell" ! (risadas)

(*) uma brincadeira com o nome da atriz Norma Bengell.

CL - Ele era muito gozado, ele era muito divertido, não tinha uma vez que você estivesse com ele, que você não morresse de rir, um barato.
E você pergunta o que o Tom é pra mim - o Tom pra mim é uma Universidade Musical, nessa da gente sentar juntos, de trocar idéias... Nossa, o que eu aprendi! O João também foi uma outra Universidade para mim, porque eu gostava de música, mas nunca frequentei uma escola de música, sempre aprendi assim, umas coisas aqui, outras ali. Aprendi umas coisinhas com o Léo Peracchi, também.


A mão ao contrário

LR - Carlinhos, o ritmo bossa nova, apareceu com o João Gilberto? A primeira vez que você ouviu o ritmo bossa nova, foi com o João? E o Tom, começou a tocar essa batida depois do João?
CL - Foi, quer dizer, todos já fazíamos ritmos antes do João, todos, ninguém aguentava mais tocar samba assim (Carlos toca um trecho da batida de samba tradicional). A gente tocava samba - por exemplo, eu já tinha feito (o samba) "Ciúme", e ainda não conhecia o João Gilberto (Carlos mostra a música com a batida tradicional). Com o Caymmi, já tinha "Rosa Morena" e vários outros sambas, antes do João "meter a mão". O que o João fez, que foi da maior importância, foi aquela coisa da mão dele na posição certa, pela escola de Tárrega, porque ele fez muito arpejo, muita escala, muita coisa para exercitar as mãos. E ele chegou àquela batida sincopada de samba, que cada um faz da sua maneira, mas bàsicamente, tem um "chac, chac, chu-chac", que o Moreira da Silva chama de goteira. Você pergunta pra ele: "Você gosta de bossa nova?" e ele diz: "Como é que eu vou gostar de goteira !" (risadas)

A primeira vez que o João fez isso, foi no Bar do Plaza, em 1955. Ele costumava ficar num cantinho lá atrás, e me chamou: "Carlinhos, vem ver isso aqui!" e tocou pra mim.

Carlos Lyra toca um trecho, fazendo a batida de João Gilberto:
"... Rosa, morena, onde vai morena Rosa, com essa rosa no cabelo e esse andar de moça prosa, morena, morena Rosa..."
Ele era muito econômico de acordes. E o detalhe é que ele tocava com a mão (direita) em outra posição, era tudo ao contrário. Ele tocava acordes com cinco notas, o dedo indicador pegava a "prima", o médio pegava a corda si, o anular pegava a corda sol e o mindinho pegava a corda .
LR - Ele colocava os dedos ao contrário!
CL - Ele dizia que teve um problema na mão, por causa daquele negócio de tocar muito tempo desse jeito.
LR - Mas ele mudou, depois, porque eu o vi várias vezes tocando na posição normal.
CL - Mudou. Desde 1957 ele já não tocava mais assim, ele passou a tocar do jeito normal. Até 1956 ele ainda tocava tudo trocado - e aí, aquela outra coisa que ele tocou também na minha frente, com os dedos da mão direita trocados e eu fiquei observando aquilo o dia inteiro, tinha que olhar de cabeça para baixo, para poder entender
Carlinhos mostra um trecho de "Um abraço no Bonfá", de João Gilberto.
E o João dizia: "É porque assim a gente consegue dar os acordes com cinco cordas". Foi em 1956.


Um estado de espírito

CL - "Chega de saudade" foi a primeira música que o João Gilberto gravou. Primeiro no disco da Elizete e depois foi também a primeira música que ele gravou em single.
LR - Eu sempre tive a impressão de que o Tom já devia ter feito essa música antes, com outro ritmo, porque a estrutura dela toda não me parece uma bossa nova, parece choro.
CL - É evidente que foi mudado, com certeza. Choro eu não sei se era, mas é evidente que é uma coisa que o Tom já tinha feito. O que o João Gilberto fez, foi colocar o samba dentro de um esquema de ritmo sincopado, uma economia absoluta de acordes - ele fazia poucos acordes, hoje ele faz mais.
Um dia eu disse ao Tom que bossa nova não é só samba: é valsa, é baião, é tudo isso, e ele concordou: "Carlinhos, posso repetir isto que você está dizendo?"

O Ronaldo Boscoli chegou quase perto, disse que bossa nova é um estado de espírito. É mais um estado de corpo, porque bossa nova é tudo, então, se não for bossa nova, eu não sou bossa nova, "Minha Namorada" é um samba-canção, é um bolero. "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas" não é samba nem aqui nem na China, é marcha rancho, e "Primavera" é modinha, inspirada em chorinho (Carlos Lyra toca um trecho de "Primavera" no violão).
E tem também essa outra música do João Gilberto:


Carlos toca um pedaço de "Oba-la-la", de João Gilberto, e depois pergunta: "O que é isso ?"

LR - Parece um bolero!
CL - É um beguine, do próprio João Gilberto, que fez as batidas, que arredondou tudo. A partir do momento em que ficou uma maneira de tocar, de expressar, todas as músicas passaram a ter uma...(característica).

Tanto que o Tom dizia: "É, a coisa está mais pra violão do que pra piano. Quando eu cheguei nos Estados Unidos, os americanos não me deixaram tocar piano, disseram que bossa nova era violão, e eu tive que tocar violão. Mas eu sou edipiano".
LR - Inclusive com o Frank Sinatra, ele tocou violão, e tocou bonito.
CL - Ele tocava direito. Eu perguntei ao João Gilberto: "O Tom sabe tocar violão?" E o João respondeu: "Não é bem que ele sabe, mas ele toca certo".


"A bênção, Carlinhos Lyra, parceirinho cem por cento, você que une a ação ao pensamento e ao sentimento"
Vinicius de Moraes, em "Samba da Benção"


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