Edgard Poças
20-out-2000
 
Zequinha Marques da Costa (1924 - 1982) empresário paulista, amigo e parceiro de grandes artistas, hoje seria chamado de agitador cultural. Foi diretor artístico da antiga TV Record, dirigiu os programas TV de Comédia e TV de Vanguarda na antiga TV Tupi, e foi diretor de teatro nos anos 50.
Teve algumas composições gravadas; a canção "No Meio da Noite", em parceria com Aloysio Figueiredo, cuja letra é objeto de análise no livro Comunicação Poética, de Décio Pignatari, Ed. Cortez e Lopes, erradamemte atribuída a Antonio Maria, alcançou grande destaque na voz de Maysa.
Foi o maior amigo de Vinicius de Moraes, e pode ser visto com o poeta nas biografias "O Poeta da Paixão, uma biografia" de José Castello, Companhia das Letras, e "Vinicius Sem Ponto Final", de João Carlos Pecci, Editora Saraiva, na célebre foto onde os dois aparecem juntos tomando banho de banheira.
I - O Letrista

Em 1966, meu primo, o querido e saudoso Zequinha Marques da Costa criava e realizava no Teatro Municipal de São Paulo o espetáculo "Vinicius Poesia e Canção" em homenagem ao poeta de quem foi o maior amigo, desde que se conheceram no meio dos anos 50 apresentados por Américo Marques da Costa, outro querido e saudoso primo.

Eu conhecia Vinicius há alguns meses (apresentado por Zequinha) e em se tratando do poeta, já era portanto um velho e grande amigo, e colaborava (e comemorava, é lógico) na produção daquela noite inesquecível que contou com vários parceiros e intérpretes do poeta, orquestra sinfônica, quinteto (César Camargo Mariano, Baden Powell, Azeitona, Milton Banana e Copinha), côro, regência de Diogo Pacheco, apresentação de Paulo Autran e Susana de Moraes (numa atuação emocionante) e pela primeira vez, uísque no palco, que Vinicius sorvia durante o espetáculo, instalado num praticável que o Zequinha mandou fazer e tinha até lugar pra copo. (Existem 2 LPs que foram lançados pela FORMA/Companhia Brasileira de Discos).

Vinicius, como sempre, estava no Excelsior Apartamentos, na Praça da República. É difícil de acreditar que uma manhã chegamos a tocar violão na praça, voltando da noite, é lógico, com Carlos Lyra, Norma Benguell, Edu Lobo, Odete Lara, Francis Hime.

Uma tarde, de folga dos ensaios, batendo papo, quer dizer, eu enchendo o saco do Vinicius com perguntas, e a cara de VAT 69, e ele respondendo com aquele jeito amoroso e a paciência que os fans merecem, pedi que me falasse sobre a parceria com Pixinguinha para o filme "O sol sobre a lama", ele contou a história toda, e disse que nunca tinha conhecido ninguem tão bonito como o Pixinguinha, e cantou "Mundo Melhor" e "Lamento", e eu gravei num GELOSO.

Perguntei das parcerias com Ary Barroso e ele botou pra tocar numa vitrolinha (!) o LP da Ângela Maria, cantando a obra completa, muito bem por sinal . Na verdade era um Little Playing, que tinha na época, com quatro faixas de cada lado, que Vinicius havia trazido do Rio para escolher alguma para o espetáculo. Quem quizer ouvir é só comprar a reedição "Ângela Maria a Estrela do Brasil", caixa com 3 CDs da Victor/BMG.

Eu já conhecia "O Rancho das Namoradas" pela gravação do Geraldo Cunha (essa é descolada, hein!), e fiquei apaixonado por "Em Noite de Luar", que depois ele cantou acompanhando-se ao violão, e eu novamente registrei no GELOSO.

Quero deixar bem claro que eu não era aquele chato que ia com o GELOSO pra tudo que era canto, o Vinicius tinha me pedido emprestado, o Badinho, o Carlinhos e o Eduzinho iam chegar do Rio e sabe como é, não mais que de repente, podia pintar mais uma parceriazinha.

No fim da tarde pintaram o Baden, o Gilberto Gil, gordo, de bigode, vinha do basquete na Gessy Lever, e o Milton Banana, que fazia toda a bateria com a boca, e os tres ficaram tocando um tempão, o samba "Eu Vim da Bahia", saído do forno, e o Vinicius dizia que balançava que nem a barriga do Caymmi, e vocês adivinharam aonde eu gravei.

O Baden reclamou do meu violão : - Esse troço tá empenado pô !

Era um violão todo assinado, tinha Caymmi, Cyro Monteiro, Elizete, Baden, Lyra, Luiz Eça, Sérgio Mendes, Edú, Francis Hime, Vandré, Duke Ellington, tinha até a assinatura do João Gilberto, aquela da capa do LP "O amor o sorriso e a flor".

A essa altura, provavelmente, voces já devem estar achando que eu errei de endereço, e essa história seria melhor pro CLUBE DO VINICIUS, mas o Tonzinho, que já vai entrar no assunto, cedeu o espaço para que eu pudesse apresentar as credenciais para a narrativa, que se segue.

 
  II - A Música

Naquela tarde (que tarde !), sapequei no violão, antes do Baden chegar, uma canção que achava maravilhosa, aprendida de ouvir no rádio (!), interpretada pelo fabuloso Orlando Silva, anunciada como música feita por Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, especialmente para o "Cantor das Multidões", a "Canção da Eterna Despedida", cuja forma curiosíssima você pode ver na partitura escrita a partir da gravação.

Quando cantei o último verso : "de separar-me de ti", Vinicius corrigiu : - Edigarzinho, no final é "de arrancar-me de ti", e não "de separar-me de ti", o Orlando gravou errado !

Cantamos juntos mais umas vezes.


Tom e Vinicius
III - O Músico

Agora estamos em junho de 89, com Zezito Marques da Costa, Fernando Marques da Costa, respectivamente, filho e sobrinho do saudoso Zequinha Marques da Costa, e nossa amiga Lú Medeiros, na residência do casal Michel e Susana Etlan, que amavelmente nos recebeu junto a seus amigos Antonio Carlos Jobim e sua esposa Ana, para apresentarmos ao maestro um projeto de CD em homenagem aos dez anos da morte de Vinicius de Moraes, que seria patrocinado por um banco, cuja conta publicitária era da agencia Marques da Costa Propaganda, do meu primo Zezito.

Convidado a explicar o projeto, comecei dizendo que seria um CD com o Maestro interpretando Vinicius, e aos poucos o papo foi ficando animado, o maestro falou que gostava "dos Andrades" (Mário e Oswald), de São Paulo, e eu aproveitando a deixa disse que nós paulistas estávamos na torcida esperando uma composição dele pra nossa cidade, quem sabe o "Samba do Aeroporto", ele deu aquela risada, e respondeu que já tinha até começado um tema. Lá pelas tantas mencionei a "Canção da Eterna Despedida", e ele sem ralentar, respondeu em forte > piano :

- Essa música não é minha !

E agora ? Taí o mistério para os pesquisadores decifrarem. Será que o maestro participou da composição ?

O nome da parceria está registrado em :

- Disco 78 RPM, nº M2 CAB - 1580, Gravadora Victor, Lançamento : 5/2/62
- LP RCA "Sempre Sucesso", nº Bbl 1189, Lançamento : 1964

Estes dados podem ser confirmados em:

"Orlando Silva - O Cantor das Multidões" de Jonas Vieira, Funarte, Coleção MPB 14, 1985.
"Nada Além - A Vida de Orlando Silva " de Jorge Aguiar, Editora Globo.
"Orlando Silva - Cantor Número Um das Multidões" de Rui Ribeiro, Editora Cruzeiro do Sul.

Edgard Poças

PS 1 :
Já ouvi o tema que o Tom disse que estava fazendo pra São Paulo, gravado e cantado por ele, mas não estou autorizado a dizer nem onde nem como. Mas que existe, existe.

PS 2 :
O que aconteceu com o GELOSO e o violão assinado é outro papo que fica pra uma outra vez.

PS 3: A gravadora REVIVENDO lançou este ano "Tom Jobim - Raros Compassos", caixa com 3 CDs, contendo uma gravação da "Canção da Eterna Despedida" cantada por Carlos Augusto, com diferenças significativas na letra, que voce pode conferir aqui mesmo no Clube do Tom. Datada de 1959, esta gravação é, portanto, anterior à de Orlando Silva, o que coloca em dúvida os "Disk Jockeys" da época que afirmavam ter sido composta especialmente para o "Cantor das Multidões".

 

 

  Edgard Poças é músico, compositor e letrista. Foi amigo de Vinicius, e quer que Tom seja incluído entre as Maravilhas do Mundo, que, então, passariam a ser oito.

 


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