Canção do amor demais
Texto da contracapa Dois anos são passados desde que Antonio
Carlos Jobim (Tom, se preferirem) e eu nos associamos para fazer os
sambas de minha peça "Orfeu da Conceição", de que
restou um grande sucesso popular, "Se Todos Fôssem Iguais a Você"
e, sobretudo, uma grande amizade. É notório que parceiros
se desentendem: e a história da música popular brasileira
está cheia dessas brigas de comadres, provocadas geralmente por
vaidades e ciumadas, por um não querer o seu nome em baixo do
nome do outro, quando não por motivos mais deselegantes e mesquinhos.
Mas no nosso caso, não só essa amizade como um profundo
afinamento de sensibilidades para a música, que constitui, sem
dúvida, nossa distração máxima, tem determinado
que fazer sambas e canções seja para nós um ato
extraordinàriamente livre e gratuito, no sentido da fatalidade. Este LP, que se deve ao ânimo de Irineu
Garcia, é a maior prova que podemos dar da sinceridade dessa
amizade e dessa parceria. A partir dos sambas de "Orfeu da Conceição",
raras têm sido as vêzes em que, de um encontro meu com o
maestro, não resulte alguma composição nova, por
isso que eu creio ser essa a verdadeira linguagem da nossa relação.
Ponha-se Antonio Carlos Jobimao piano - e é difícil encontrá-lo
longe de um - e em breve, de dois ou três acordes, nascerá
entre nós um olhar de entendimento; e de seus comentários
cifrados ("- Isto são as pedras, poeta!"; "- Os pequenos caracois
listados debaixo das folhas sêcas..."; "- As grandes migrações
corais..."; "- O outro lado do riacho..."; "- Chegamos à galaxia...")
eu terei sabido extrair exatamente o que êle me quer ouvir dizer
em minha letra. E nunca houve entre nós quaisquer reservas no
sentido de um tirar o outro de um impasse durante o trabalho. É
possível mesmo que tudo isso se deva ao fato de que êle
crê na poesia da música e eu creio na música da
poesia. Porque a verdade é que eu gosto das letras que, eventualmente,
Tom também escreve, como "As Praias Desertas"; e a prova de que
êle considera as músicas que eu, vez por outra, também
faço, está no carinho com que orquestrou a minha "Serenata
do Adeus" e o meu "Mêdo de Amar" - todos neste LP. Nem com êste LP queremos provar nada, senão
mostrar uma etapa do nosso caminho de amigos e parceiros no divertidíssimo
labor de fazer sambas e canções, que são brasileiros
mas sem nacionalismos exaltados, e dar alimento aos que gostam de cantar,
que é coisa que ajuda a viver. A graça e originalidade dos arranjos de
Antonio Carlos Jobim não constituem mais novidade, para que eu
volte a falar delas aqui. Mas gostaria de chamar a atenção
para a crescente simplicidade e organicidade de suas melodias e harmonias,
cada vez mais libertas da tendência um quanto mórbida e
abstrata que tiveram um dia. O que mostra a inteligência de sua
sensibilidade, atenta aos dilemas do seu tempo, e a construtividade
do seu espírito, voltado para os valores permanentes na relação
humana. Não foi sòmente por amizade que
Elizete Cardoso foi escolhida para cantar êste LP. É claro
que, por ela interpretado, êle nos acrescenta ainda mais, pois
fica sendo a obra conjunta de três grandes amigos; gente que se
quer bem para valer; gente que pode, em qualquer circunstância,
contar um com o outro; gente, sobretudo, se danando para estrelismos
e vaidades e glórias. Mas a diversidade dos sambas e canções
exigia também uma voz particularmente afinada; de timbre popular
brasileiro mas podendo respirar acima do puramente popular; com um registro
amplo e natural nos graves e agudos e, principalmente, uma voz experiente,
com a pungência dos que amaram e sofreram, crestada pela pátina
da vida. E assim foi que a Divina impôs-se como a lua para uma
noite de serenata. Rio, abril de 1958.
Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes