entrevistado por
Sérgio Lima e
Luiz Roberto Oliveira


CAPÍTULO II






A Corja

DC: Depois o Tom assumiu o Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, quando ele chega dos Estados Unidos, bem nessa fase do Matita Perê. Eu trabalhei com ele nos arranjos deste disco.
SL: Na época havia grandes controvérsias dizendo que você tinha sido escolhido pelo Tom para fazer os arranjos do Matita Perê, que depois foram feitos pelo Claus Ogerman. E eu me lembro também, tava falando pro Luiz - e é uma pena que isso não tenha sido registrado - teve o filme "Crônica da Casa Assassinada", e havia um conjunto, chamado "A corja", que era você, o Tom Jobim, e mais...
DC: Paulinho Jobim, Danilo Caymmi, Cussy de Almeida. Quem tem essa trilha sonora possivelmente é o Paulo Cesar Saraceni, o diretor do filme.
SL: Isso nunca foi pra disco, ele deve ter gravado só para o filme.
DC: E eu toco violão, o Paulinho e o Danilo tocam flauta, o Tom no piano e tem a participação do Cussy de Almeida.
LR: Violinista.
DC: Violinista, é, se não me engano o Cussy também toca.


Os primeiros trabalhos de Dori para Tom

DC: A primeira vez que eu trabalhei com o Tom como arranjador, foi na elaboração e mistura do violão com piano em... (Dori canta um trecho do arranjo de "Crônica da Casa Assassinada"). Ele desenvolveu esse tema e eu estudava junto com ele, eu no violão e ele no piano. Mas a minha primeira gravação com ele vem antes, chama-se "Só tinha de ser com você", para um documentário americano.
LR: Um documentário?
DC: Um documentário americano.
SL: E a gravação desta música no disco com seu pai?
DC: Esta é a segunda gravação. Antes daquele disco ali (Dori aponta para um canto da sala), havia um documentário para um americano. Ah, o disco não está alí não...
LR: Você apontou prá lá...
DC: Alguém apontou prá lá e eu também apontei...
LR: De que disco você está falando?
DC: "Caymmi visita Tom e leva sua familia".
SL: (corrige) "E leva seus filhos..."
DC: "e leva seus filhos", em que eu gravei (cantarola um trecho de música), mamãe gravou a "Canção da Noiva" da História dos Pescadores, a Nana canta "...mas prá que, prá que tanto céu..." , que é do Aloysio com o Tom. E ele fez também a trilha sonora para um filme anterior que era uma maravilha, chamado "Porto das Caixas" (canta um trecho da valsa "Porto das Caixas").
LR: "Derradeira primavera" também estreou nesse filme, em ritmo de marcha rancho.

DC: É, era completamente diferente. Mas você esquece o seguinte: se você for ver o Tom do "Orfeu da Conceição"...
LR: Era um Tom daquele tempo...
DC: Pois é, ele vem antes. Quando falam que o João Gilberto gravou o "Chega de saudade"...
SL: Em 1959...
DC: ...eu digo com certeza absoluta que já conhecia a música do Tom, antes de aparecer o João Gilberto. Eu já conhecia o Tom Jobim pelo menos há 5 anos.

DC: Eu tinha 11 ou 12 anos de idade quando eu ouvi o Tom pela primeira vez em Cataguazes (Minas Gerais) - não ouvi ele cantando não, ouvi a música dele.
Havia a rádio dos estudantes em Cataguazes, e tudo quanto era novidade o cara levava, 78, Long Play, tudo. Então, na ‘Hora do Estudante’ a gente botava disco, tinha uma discoteca - discoteca no bom sentido, uma discotecaria, não era de dançar não, não era aquela loucura. Aí já tinha o Tom, eu já via o nome dele: Antonio Carlos Jobim - já tinha o nome dele no disco, já tinha a Maysa cantando, cantava "Bronzes e cristais", tinha coisas anteriores até, um negócio meio do início da Maysa , "Ouça, vá viver a sua vida...". Eu já ouvia música do Tom aí nessa fase. E tem o Orfeu Negro, que é "eu e o meu amor ..."
LR: "que foi se embora me deixando tanta dor..."
DC: Isso é do Tom e Vinicius, foi feito por eles. Dessa época tem vários sambas.


Matita Perê


SL: Dori, vamos voltar ao Matita Perê?
DC: O Matita, vamos chegar no Matita. Mas a minha primeira experiência de arranjo para o Tom foi na música dele "Só tinha de ser com você" para o documentário americano de que eu falei antes.
LR: Foi a primeira gravação desta música?
DC: Foi.
LR: E você lembra qual foi o filme?
DC: Não, veio uma equipe americana filmar um documentário e o Tom fazendo a música, e foi um pouco antes do Tom virar o Tom americano - foi perto da época do Carnegie Hall, com certeza.
LR: Quem é que cantou nessa gravação?
DC: Ninguém cantou, era uma trilha sonora instrumental. Eu me lembro quando o Tom me chamou, eu apavorado, toquei violão. Os outros músicos eram Milton Banana (bateria), Amauri na percussão, Tião Neto, e tinha mais... eram o Pedro Paulo, Paulo Moura, Raulzinho do trombone, com o trombone embrulhado no jornal, era um coisa assim, dava pânico de entrar no studio, eu tinha 17 anos, por aí, nessa época. E eu fiz pela primeira vez, e a música tem uma harmonia intrincada, um acorde atrás do outro (canta) "É, só tinha de ser com você..." E ele meu chapinha prá burro, e então fiquei ligado a ele.

 

É muito a cabeça dele, a genialidade dele

Ele adorava, mas já incorporava ao trabalho dele

Quando ele voltou dos Estados Unidos, me perguntou "Vamos trabalhar juntos nesse negócio aqui?", e ele me mostrou o Matita Perê, e mostrou Águas de Março, mostrou Ana Luiza, (canta) "Ana Luiza, eu fiz essa canção só prá você". Fomos trabalhando na trilha, quando ficou pronto, que o Matita, a gente não deve se enganar: coopera-se com o Tom, eu cooperei com ele várias vezes e até criei algumas coisas dentro da música dele, mas a essência do trabalho é dele. Nem eu, nem o Claus (Ogerman), nem o Eumir (Deodato), nem ninguém, mudou nada porque aquilo é a cabeça dele. É muito a cabeça dele, é muito a genialidade dele. A gente cooperou, a gente ajudou. Por exemplo, no Matita Perê ele faz (canta uma frase), e eu faço (canta uma variação da frase, terminando em notas mais agudas). É o oposto, porque ele diz que enquanto a polícia está aqui o João tá fugindo lá em cima, então eu pegava a orquestra e invertia. Ele adorava, mas ele adaptava, já incorporava ao trabalho dele. Não queria saber se era meu ou se não era, ficava sendo dele. Entendeu? Mas o Paulinho (Jobim, filho de Tom) dizia: "Mas essa frase foi o Dori que fez" e ele "Não, não interessa, é da minha música!" No meio tem um trecho em que a música descansa (canta outra parte) - esse é meu, esse é de minha autoria. Quer dizer, nós fomos fazendo o arranjo juntos, aí as trompas ele fazia (canta), depois mudava de tom, tudo elaborado junto.


Queijo com café
Tem umas cenas engraçadas... a mais engraçada de todas: ele fumava pra cacete, eu também. Ele adorava comer queijo minas com café, e a empregada vinha com a bandeja e a gente ficava comendo. Não tinha cinzeiro no piano dele, e eu comecei a botar cinza no meu resto de café. E o Tom não podia ver resto de café que ele bebia. Ele pegou no meu café cheio de cinza, bebeu, parou, botou a xicara de volta, escreveu uma nota na partitura e disse assim: "Dori Caymmi, você gosta de botar cinza no café, não é?" Ele levou um tempo prá me esculhambar, mas não esculhambou não, falou delicado.

No próximo capítulo:
Dori chegava cedo em casa de Tom para trabalhar.
Matita Perê e a gravação que não foi para o disco.


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