Luiz Roberto e Dori

entrevistado por
Sérgio Lima e Luiz Roberto Oliveira

 


CAPÍTULO III





"Seu Tom tá dormindo"

DC: Naquele tempo, o casamento do Tom com a Tereza estava balançando, estava terminando. Tereza e Tom Jobim eram a minha grande paixão da época, e, junto com Luiz Eça, os meus incentivadores.

E o trabalho com ele era assim: eu ia prá casa dele, na rua Codajás, no Leblon, mais ou menos às 11 horas da manhã. Eu costumava ser recebido com um "seu Tom tá dormindo". Eu esperava, Tereza descia, tomava café, e depois ele vinha, e me dizia: "Mas você já está aqui, Dori Caymmi? Pô, já quer trabalhar!" Ele já vinha de ressaca do dia anterior. Sentava no piano, organizava algumas coisas, e dizia: "Agora vamos pro Plataforma!" Ele estava iniciando a fase do Plataforma, de sair de casa prá beber, mas nós fizemos o disco assim mesmo.

Arregimentou-se uma orquestra imensa para gravar no antigo estudio da Columbia, no centro do Rio de Janeiro. Quando a gravação começou, o som, tudo, incomodou a ele brutalmente. Ele aí mandou suspender, que não ia dar certo aquilo não. Ele não gostou do som.

Um dia ele bateu na minha porta de manhã, e disse que estava indo gravar em Los Angeles.

Eu disse: "Tá legal, você tá com os arranjos?" Ele disse: "Tá tudo aqui comigo". Eu respondi: "Então leva, Tom". E ele levou Águas de Março, Matita Perê, e Ana Luiza. O arranjo original de Águas de Março é criado por ele e por mim, eu só colaborando pela ponta esquerda - se eu desse uma idéia que ele gostava, ele incorporava, sabe como é? O Tom tinha muito isso, que é parte da personalidade dele, e parte pelo fato de estar ensinando a um moleque menor: "Bota seu galho aí dentro, menino".

Ele deve ter sofrido isso com alguém mais, não se iluda não. O Ary Barroso e outros músicos que eu conheci tinham um pouco dessa coisa de ego mesmo, que eu sempre apreciei no Tom muito mais do que no João (Gilberto). No João já é loucura, já é negócio de bancar o maluquinho. No Tom era ego mesmo, afirmação. Eu nunca condenei não, muito pelo contrário, acho até saudável.

Um dia ele ligou e perguntou a Helena, minha mulher: "O Dori tem o arranjo de Bangzália?" Aí a Helena respondeu: "Não, acho que não, que Bangzália é esse?" Ele disse: "Ele gravou no meu disco, o Dori tem esse arranjo". E ela: "O arranjo não deve ser dele não, Tom, por que não tem crédito no disco". Helena deu uma porradinha nele, e ele engoliu o sapo e ficou calado...


Música de cabeceira

DC: Ele estava com uma preocupação nacionalista tão grande nessa época que eu algumas vezes escrevia um trecho para cordas e ele reagia: "Hollywood, é?"

Teve também uma fase muito engraçada em que o Tom dizia: "Põe o Claus Ogerman, põe um alemão na sua vida que fica tudo certo". Na realidade ele tinha preguiça de ter essa visão orquestral que o Claus tem. "Saudade do Brasil" (no disco "Urubu") é uma obra prima, se bem que o Tom Jobim tocava no piano igualzinho . Mas o Claus instrumentou a música com uma beleza, com uma capacidade de emocionar, que a música orquestrada ficou muito melhor do que tocada pelo Tom no piano. Eu fiquei surpreso, porque geralmente as músicas só com o Tom no piano ficavam melhores do que com outra instrumentação qualquer.

"Saudade do Brasil" é a minha música de cabeceira. Eu gosto mais da abertura do violoncelo em "Saudade do Brasil" do que do fagote no começo da "Sagração da Primavera" do Stravinsky.


Imitando o Dori
DC: O Edu (Lobo) um dia me contou uma estória, que ele começou a tocar violão pro Tom e o Tom disse assim: "esses acordes são do Dori". Prá você ver até aonde ia...
SL: ...a amizade...
DC: ...É. E ele dizia assim, "eu sei, eu identifico o Dori, não vem não, eu conheço o Dori. Esse violão é do Dori". Se alguém tocasse parecido comigo, ele dizia assim, "não é original seu, você está imitando o Dori". Isso ficou sendo um cumprimento que você não pode esquecer jamais na vida.

O Edu escreveu uma coisa linda no disco, "...neto de Villa-Lobos", muito bonito. E ele ficou mais generoso com essas coisas, com esses elogios, depois. Ele era muito tímido prá dizer as coisas, ele não tinha muito desembaraço pra dizer pra você que você era bom, entendeu? Ele era travado e, depois de um certo momento, ele destravou.
Até... quando eu fui ensaiar com ele prá tocar um concerto no Municipal, quando esse grupo estava começando, praticamente, o único que ele tinha para esculhambar era eu, porque eu era o mais íntimo. A Betinha (Elizabeth Jobim, filha de Tom), ele não ia brigar com a Betinha; a Ana era mulher dele; a Simone, mulher do Danilo; ele não tinha intimidade com o Jacquinho Morelenbaum, nem com a mulher do Jacquinho Morelenbaum, nem com a Maúcha; era tudo um grupo novo de jovens começando a cantar. O Danilo (Caymmi, irmão de Dori) dizendo assim pra mim: "Não dê palpite não, eu é que sou o diretor". Quer dizer, ele não manja nada de dirigir pôrra nenhuma perto de mim; eu tenho dez anos na frente do Danilo, de dirigir. Mas eles todos preocupados com aquele negócio de assegurar a posição no grupo do Tom. (risos)


Arco e flecha

DC: Mas foi mesmo, foi acintoso. E eu, quando cheguei de fora, notei. (O baixista) Tião Neto falou assim, "Pô, você tá mal, hein?" E o Paulinho (Jobim) tinha levado todas as partituras e eu estava tocando de ouvido, e o Tom virava assim: "Esse acorde tá errado". Falei: "Mas eu não tenho a partitura Tom, cadê as partituras?" Ele falou assim: "Mas você não toca de ouvido? Você sempre tocou de ouvido". "Não, não toco de ouvido, eu tô velho, pôrra, preciso da partitura". "As partes estão com o Paulinho, pô". Eu disse: "Então vamos sentar prá escrever os acordes". "Não, não, vamos de ouvido".
E eu tinha que tocar todos aqueles arranjos dele de ouvido...
DC: Aí, um dia, eu toquei um acorde e ele disse: "Esse acorde está errado". O Tião falou: "Não, esse acorde foi o que você deu pra ele ontem". Aí, ele olhou pro Tião e falou, "Mas como..." E ele disse: "Não... esse aí eu ouví, Tom. Não vem não, esse aí o Dori está certo e você está errado... que eu estou tocando com o Dori e estou sabendo que ele está certo".
Aí, o Tião dizia assim pra mim: "Volta pro conjunto pra ver se dá um gás nesse conjunto, que ele está muito..." Porque o conjunto era muito medroso com relação ao Tom, era tudo muito centralizado nele. Mas depois eles deslancharam. Paulinho é tímido; ali, o mais esperto é o Jacquinho. Jacquinho é esperto, se ele puder ele te dá uma arcada, ele usa o arco como arco e flecha. Porque ele estava procurando o espaço dele - entendeu? - e achou.
LR: E achou o espaço naquele grupo e também fora dele...
DC: ...com Caetano Veloso.


Caetano e Gal

DC: O Caetano é uma pessoa muito sensível, uma pessoa muito gentil, um homem muito inteligente, essa coisa toda. Agora, ele tem um domínio de personalidade, que a própria mídia cai nessa onda, entendeu? Tudo o que ele fala é que é mais importante. Eu me lembro das fotografias, todas sairam como se Gal e Caetano fossem as pessoas mais importantes na vida do Tom Jobim. Pra imprensa, o fato de o Caetano estar chorando na morte do Tom era muito mais importante do que qualquer outra coisa...
SL: É verdade.

DC: ...que é uma coisa ridícula, né? Mas infelizmente é isso. E termina com aquela imbecilidade que se fez aqui num fim de ano, em nome do Tom, aquela vergonheira, aquele show que acabaram...
SL: ...cobraram uma grana, aí deu um rolo...
LR: Ah, sim, aquele negócio lá na praia. É, aquilo foi feio demais!
DC: E vou dizer pra você, que é feio e se eu estivesse aqui o pau ia comer... eu ia ficar zangado; é, o pau ia quebrar, porque eu não tenho temperamento pra ouvir essas coisas não; exigências e coisas de: "eu quero suite presidencial do Copacabana Palace", essas coisas assim...
DC: ...não é amigo do Tom... não é. Entra Pepsi-Cola, entra não-sei-o-quê, não é amigo do Tom. É dinheiro. As pessoas querem fazer dinheiro em nome do Tom; não dá pé, prá mim não dá pé.

No próximo capítulo:
Bonfá e Dick Farney. O sítio de Poço Fundo.


Home Page em portuguêsHome Page in English
Volta ao topo da página | Top of Page