entrevistado por
Luiz Roberto Oliveira e Sergio Lima



PRIMEIRA PARTE







Introdução

11 de outubro de 96.
Enquanto esperávamos por Edu sentados no salão de um hotel, Sergio Lima e eu tentávamos combinar o que iríamos perguntar a ele. Em vão: desde o começo da entrevista, o que aconteceu foi uma conversa solta e animada sobre Tom Jobim. Edu tinha um show naquela noite, e o incômodo causado por uma dor na mão direita não impediu que pegasse o violão para nos mostrar "Prá dizer Adeus", com a introdução feita por Tom.

Luiz Roberto Oliveira: O que é o Tom para você, Edu ?
Edu Lobo: Eu li uma vez uma história do Fernando Sabino sobre o Drummond que eu acho muito bonita. Anos depois eu comecei a pensar nela de novo, provàvelmente depois da morte do Tom: é sobre a admiração do Fernando Sabino pelo Drummond, que começou quando ele tinha 18 anos, e foi sempre aumentando, porque ele foi melhorando, ele foi chegando perto do Drummond. Ele foi virando um escritor melhor, mais culto, mais interessado em poesia e o Drummond foi ficando maior ainda.

EL: Com o Tom foi exatamente isso. Quanto mais você se interessa por música, aprende e tal, mais você chega perto da - eu não gosto dessa palavra - da obra dele, "obra" é feio, mas enfim, do trabalho dele. E você fica mais capaz de curtir, de tocar, e começa a ver a dimensão. O Tom é o melhor compositor popular que eu conheço. Na época dele não tinha ninguém igual, em qualquer lugar do mundo. Eu tenho o prazer de ter dito isso prá ele algumas vezes. Numa dessas vezes ele perguntou assim: "E o Michel Legrand?"
LR: Ah, mas que Michel Legrand...
EL: Eu disse a ele: não encosta em você.
LR: Nem chega perto.
EL: Mas eu achei engraçado ele perguntar porque era uma coisa meio de criança.

Você é um craque

Tem histórias geniais aí que eu me lembro a toda hora. Por exemplo: a gente ia muito prá casa dele em Ipanema, era uma casa sempre aberta para os amigos. A gente ficava tocando as músicas, e quando ele gostava de alguma, ia pro piano.
Quando ele não gostava ele dizia assim: "Muito bonita, e tal" mas a gente sabia que ele não tinha dado muita importância. Quando ele gostava realmente ele ia pro piano porque ele queria aprender, ele ficava interessado. E aí ele sempre inventava um acorde novo, que a gente gostava, aprendia, e tal. Na vez seguinte, quando a gente ia mostrar essa mesma música, na hora desse acorde, ele dizia assim: "Edu Lobo, você é um craque !"
LR: Isso aconteceu com você também ?
EL: Aconteceu comigo algumas vezes e com o Chico (Buarque) também.
LR: Dá um exemplo de alguma música sua que ele tenha contribuido com algum acorde.
EL: "Prá dizer adeus". Quando a gente gravou ele fez uns dois acordes de passagem.

Sergio Lima: Eu vi uma vez na TV um video sobre a gravação do disco, e eu me lembro que tem uma cena muito interessante em que vocês estão até meio que discutindo sobre...
EL: (a música) Vento Bravo.
SL: Vento Bravo, e é uma coisa rara porque você estava no piano também.
EL: Não me lembro direito, alguma coisa de mixagem, não sei, que bota o som pelo fone, tira do fone, não me lembro direito. Acho que não chegou a ser uma discussão não, mas ele falou assim: "A gente tocando estes pianinhos de brinquedo", porque eram uns teclados: "Eu estudei tantos anos de piano, e agora estou tocando nesses pianinhos de brinquedo..."

Edu & Tom

LR: Edu, como apareceu a idéia de fazer um disco com o Tom ?
EL: O projeto original era diferente. A produção foi do Aloisio (de Oliveira), e a idéia era fazer um disco com convidados, cada um cantando numa faixa. E aí o primeiro convidado foi o Tom. A gente ensaiou "Prá dizer adeus", e ele disse assim: "É prá fazer uma, ou posso fazer duas?" Eu disse: "Lógico que pode", aí ele disse: "Quero fazer 'Canção do Amanhecer', que eu gosto muito". Aí eu achei genial, e fizemos a segunda. Então ele perguntou pro Aloisio: "Mas tá tão bom isso aqui, por que será que a gente tem que parar ?" O Aloisio, muito esperto, falou: "Você quer fazer o disco inteiro com o Edu ?"

Prá mim foi fantástico gravar este disco com o Tom, principalmente na hora de cantar as músicas dele que eu adoro. Era um prazer enorme. É muito bom você cantar as músicas de que você gosta e que você não teve o desgaste de ter composto - você só tem prazer. E a convivência com ele que era fantástica. O tempo inteiro a gente se divertia muito.
SL: E você tem feito isso constantemente, nos seus últimos discos você sempre grava alguma coisa dele.
EL: Sempre, sempre gravo alguma coisa e sempre em show tem música dele. Hoje vai ter uma.
LR: Qual é que vai ser ?
EL: "Estrada Branca".
LR: Foi a que você gravou no seu último disco.
EL: Exatamente. Eu gravei porque foi uma música que tinha a ver com todo aquele inesperado da morte do Tom.

Os ensaios

LR. E os ensaios com ele para o disco ? Como eram ?
EL: A gente trabalhava as harmonias no piano, e ele era muito cuidadoso com isso. Ficava curtindo as músicas e aí a gente escrevia e tal. Depois eu voltava no dia seguinte e tinha mais um acorde, mais alguma coisa.
LR: E nessa etapa eram só vocês dois ?
EL: Só nós dois.
LR: Você com o violão e ele com o piano.
EL: Eu com o violão, ele com o piano e passando tudo. E aí é aquela história, o Tom era um cara sem nenhum estrelismo, super simples, muito, muito cuidadoso com as pessoas.
LR: Muito carinhoso e atento. E ele gostava de perguntar tudo.
EL: Perguntava tudo. O Tom perguntava tudo, assim: "Porque você não gosta de almoçar fora ?" Porque ele almoçava fora todo dia. Eu não gosto de almoçar fora porque eu não gosto de almoçar, eu gosto de jantar, gosto de dormir tarde. "Ah!, por que eu agora não mais durmo tarde, e você, quando chegar na minha idade, vai querer dormir cedo como eu, e acordar muito cedo". Ele escreveu no meu song book : "Você vai ser um early bird". Eu dizia: "Acho difícil, porque eu durmo muito tarde, quem dorme tarde não..." E o Tom: "Ah!, você vai ver, isso vai mudar com o tempo".
LR: E ele realmente ficou com esse hábito, dormia cedo e acordava cedo, saía para comprar o jornal...
EL: Ele dormia muito cedo, tipo 9 da noite e acordava às 5. Fazia escalas todos os dias, e depois saia prá comprar os jornais às 7. A vida dele mudou de horário, para quem havia sido um cara da noite a vida inteira. E no começo, foi dura: "Na época em que eu corria atrás do aluguel".

Um copista alemão

LR: Quando ele quis casar, o Celso Frota, que era o padrasto, o chamou para morar em casa dele, na Rua Redentor. Fez um puxado junto à garagem para o Tom e a Teresa.
EL: Tocava piano na noite, nos bares, prá todo mundo ficar conversando.
LR: Fez arranjo para muitos cantores...
EL: Depois teve uma época da vida dele em que ele ficou meio com horror dessa coisa de arranjo.
LR: Ele cansou.
SL: Mas ele continuou fazendo os arranjos vocais para o grupo dele.
EL: Aí ele gostava porque tinha as moças e tal, ele fazia o negócio na hora.
LR: Mas depois o Paulinho (Jobim) assumiu uma parte desse negócio, e o Jacques (Morelenbaum) também.
EL: Mas fazer arranjo pro Tom é diferente. Eu brincava com ele, eu dizia que ele tinha arranjado um grande copista alemão que era o Claus Ogerman. Ele ria, mas sabe porque, por que ele entrega tudo pronto. Você na verdade não arranja para o Tom, você faz orquestração.
Ele te dá a música com a introdução pronta, com todos os contracantos, e quando ele mostra a música ele fala: "Olha o cello aqui, fazendo assim", e zumbindo como o instrumento: "Os cellos estão aqui por baixo". Aí o arranjador escreve.
Não estou tirando o mérito do Claus, que é um orquestrador genial, mas quando o Claus escreve pro Tom, você ouve o Tom o tempo inteiro. É meio Ravel com Mussorgsky, por exemplo, em 'Quadros de uma Exposição'.
O Ravel não acrescentou nem uma nota a mais, não tem arranjo, ele não muda nada, nem andamento nem nada, só que é um gênio orquestrando, e tem aquele som de orquestra lindo - se você ouve a versão original para piano do Mussorgsky, é a mesma coisa.

Fim da primeira parte.

Edu Lobo, entre uma música e outra,
ainda encontra tempo para navegar na Internet.

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